Do Osso ao Po Julio Menezes Editora Draco Verta Literatura Resenha Review

Do Osso ao Pó – Júlio Menezes – Review

Sem ler nada antes, me entreguei para Do Osso ao Pó

Do Osso ao Po Julio Menezes Editora Draco Verta Literatura Resenha Review

Não é de hoje que tenho apreço pelo processo de seleção e editorial da Editora Draco (@editoradraco), mas é a primeira vez que pego alguma obra dela sem saber nada a respeito. Não me arrependi.

Entretanto, para os mais desconfiados, deixo aqui o resumo de Do Osso ao Pó, de Júlio Menezes, pela própria editora:

São Paulo, os anos 80.

Aqui a “década perdida” é palco de todas as perversões possíveis, e todos aqueles que continuam a sustentar seus vícios noite após noite sentem-se como sobreviventes. Cocaína, diversão, ódio, afetos, tudo pode acontecer nos inferninhos do centro
da cidade.

No início da sua vida adulta, Eduardo Conde vê tudo sair do controle após se envolver com as drogas e o crime – e toda sorte de pessoas que esses dois elementos trazem consigo. Ele é um homem introspectivo e apático que possui algumas fixações: a obsessão pelos ossos humanos e a ideia de que qualquer pessoa pode cometer um assassinato apenas desejando a morte do outro – até mesmo dos entes queridos – sem sujar as próprias mãos.

À beira do precipício e sob os efeitos colaterais de uma vida regada a excessos, o anti-herói desta fábula perversa vai se encontrar com seus fantasmas, sem esperanças de chegar a um bom destino.

Júlio Menezes compõe em “Do osso ao pó” um relato da cena underground de uma grande cidade, na melhor tradição de autores como Charles Bukowski e Pedro Juan Gutierrez. O leitor entra de cabeça no clima paranoico de suspense, crime, sexo e violência, sem chance de retorno.

Normalmente fico pensando em como, ou por onde, começar a resenhar, mas hoje foi mais simples. Júlio tem uma maneira muito peculiar de conduzir a narrativa e usar descrições.

Todo em primeira pessoa, Do Osso ao Pó traz as memórias de Eduardo Conde. Narrativas desse tipo costumam parecer que a personagem está fazendo um relato para o leitor, algumas vezes até conversando conosco. Nesse caso, talvez até pelo histórico, nós vemos Edu narrando de um modo todo quebrado, numa linha temporal picotada e emaranhada. Adorei isso. Parece que ele está pensando sobre sua vida e vomitando as informações que vem em sua mente, na forma e ordem na qual aparecem.

No começo, como qualquer obra nesse estilo, fiquei confuso e sem saber para onde estava indo, mas lá pelos 13% ou 15% do livro, viva a marcação do Kindle, eu já estava completamente imerso, podendo perceber com mais clareza outra característica marcante na escrita de Júlio Menezes.

A descrição.

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Como mencionei, Edu parece estar um pouco afetado por um de seus “tirinhos” quando fala conosco. O autor ajuda a dar vida e profundidade para sua personagem através das descrições, ou falta delas, em Do Osso ao Pó.

É impressionante a fluidez desenvolvida com descrições rarefeitas. Isso pode ser um terror para leitores que gostam de saber os mínimos detalhes, mas adorei não me apegar a nada disso em nenhuma das cenas e me dar conta de que eu mergulhei na história completamente.

Mesmo não tendo material para gerar imagens precisas, estou longe de afirmar que as personagens não são verossímeis. Os diálogos e as ações são usados como recursos de construção, deixando cada uma daquelas pessoas ainda mais profundas e envolventes. Consegui adorar e odiar todas, algumas mais e outras menos.

Vale a pena ressaltar alguns pontos sobre a ambientação e desenvolvimento da trama. O resumo já mostra que tudo acontece nos anos 80, em São Paulo. Eu morei e convivi em alguns dos lugares citados e foi interessante refletir a respeito de como tudo tem resquícios daquela época. Drogas, sexo e bandidagem ainda marcam presença em locais como a avenida Augusta, próxima ao centro, então consegui entender boa parte do que era colocado.

Assim como o ambiente escolhido era “podre” e desesperançado, a trama também se mostra feita do mesmo material. Temos um enredo cru e brutal, sem medo de mostrar aquilo que as novelas não gostam. Edu, como anti-herói, mostra como a vida pode ser afundada ao ponto de não gerar expectativas ou esperanças. O mundo das drogas e outros acompanhamentos não é lugar para finais felizes.

Do Osso ao Po Julio Menezes Editora Draco Verta Literatura Resenha Review

Portanto, para não me alongar demais, condo todos para ler Do Osso ao Pó. Escolham um momento entre leituras fantasiosas, assim poderão se balancear com uma boa dose de realidade. Só não achem que, por esses pontos, a leitura será truncada ou difícil, pois não é nada disso.

Garanto que a realidade, sendo bem conduzida, é tão atrativa e envolvente quanto qualquer conto de fadas. Além de, logo no início, acharem que sabem o motivo do título, e, com a apresentação de certas metáforas e contextos, terão a deliciosa sensação de concluir o quão bem escolhido ele foi.

Deixo aqui meu ósseo abraço e o link para o livro na editora!

http://editoradraco.com/2016/10/26/do-osso-ao-po-julio-menezes/


Vertamatti

Seu primeiro nome é Guilherme mas isso não é lendário o suficiente, já que é descendente de Vertamus, o grande herói gales. Um dos criadores do Costelas e Hidromel, ex-engenheiro e atual jornalista/podcaster/escritor. Amante incorrigível de todas e quaisquer mitologias além de qualquer tipo de piada ou clichê. Debutou nos games com um Phantom System, achando que era o videogame original da Nintendo, e se envolveu 100% com este mundo desde então. Fã de qualquer boa história, particularmente de grandes heróis como Link, Ulisses, Hércules e Cuchuláin. Apaixonado por livros, filmes e HQs de toda sorte, escreve contos e viaja brutalmente na maionese tentando consciliar tudo que sabe das diversas mitologias e histórias da cultura pop. Sua gana por saber e ensinar lhe garantiu a fama de reencarnação de Athena nessa era, mesmo sem os longos cabelos roxos e seios fartos. Sua risada alta e fácil mantém os amigos por perto e lhe acarreta os mais diversos apelidos carinhosos (ou nem tanto…) como: Verta, Lendamatti, Saorimatti e até Thiamatti (sua deidade favorita).


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