Far Cry 5: a simplicidade é mais perturbadora que o exótico

Antes de iniciar este artigo, preciso confessar algo. Desde Far Cry 3 me tornei grande fã dessa série de jogos. Não que Far Cry 1 e 2 não fossem bons, mas acredito que o terceiro jogo da série tenha sido um grande marco e, na minha humilde opinião, consagrou-se como um dos melhores jogos no ano em que foi lançado. Um dos grandes destaques dessa franquia sempre foi a possibilidade em se visitar locais exuberantes como ilhas paradisíacas e lugares pitorescos como Nepal. Em spin-offs frequentamos ambientes ainda mais exóticos como a ambientação “filme B anos 80” de Blood Dragon e a pré-história de Primal.

Ei Ubi, a galera tá ansiosa pela versão Far Cry 5: Meia-Lua Delícia Edition

Em Far Cry 5 temos a possibilidade de explorar nada menos que… o estado de Montana nos Estados Unidos? Uau, que emocionante. Minha primeira impressão foi como sair de Londrina (cidade onde moro), viajar para o uma ilha deserta, pegar um vôo pro Nepal e, após usar substâncias suspeitas no Himalaia, alucinar com a pré história e de repente voltar para o Paraná em uma cidade rural do interior do estado. Não parecia que a experiência seria das mais emocionantes.

Mas é justamente aí que reside a beleza do jogo. O lugar não precisa ser exótico para que situações improváveis e perturbadoras aconteçam. Elas podem acontecer em locais comuns, que eu e você frequentamos. Basta haver seres humanos para que isso ocorra. Assim, Far Cry 5 nos apresenta um lugar banal, mas com uma comunidade que voltou sua fé a líderes religiosos cristãos com motivações duvidosas. E isso é mais perturbador do que ser capturado por contrabandistas em uma ilha pouco explorada ou encontrar um excêntrico ditador no outro lado do globo.

Hope Country é a cidadezinha escolhida para ser o palco dessa aventura, na qual temos que enfrentar uma família (cujos membros dominam cada área do jogo), empoderada pela fé de seus seguidores em uma espécie de seita. Vale a pena aqui traçar paralelos históricos que se relacionam com o contexto estadunidense como o caso do pastor Jim Jones, que foi autor do maior suicídio coletivo da história (com cerca de 900 mortes – uma rápida busca no google vai te impressionar com este caso) e também o caso do guru indiano Osho (que ainda não havia recebido essa alcunha), com o conflito retratado na série documental do Netflix: Wild Wild Country. Recomendo ao leitor que antes (ou após) jogar o game, entre em contato com esses dois casos históricos e trace por si os paralelos com Far Cry 5. Acredito que isso tornará ainda mais crível e imersiva sua experiência.

Não pretendo me prolongar em questões técnicas e por isso vou fazer um breve resumo a seguir: graficamente o jogo é muito competente e imersivo. A vida selvagem é  realista e interage entre si de forma extremamente natural e convincente. Em questões gráficas você pode esperar algo próximo a Assassins Creed Origins. No quesito jogabilidade, está ainda mais fluida, com um sistema de aprimoramento de habilidades mais simples e intuitivo, e com a possibilidade em se recrutar aliados que podem te acompanhar durante o jogo (cada qual com suas especialidades). Estes aliados variam desde indivíduos comuns, passando por coadjuvantes importantes da narrativa e chegando até mesmo a animais, como o simpático urso X-burguer. A autonomia dos aliados é impressionante e a interação entre eles é singular para cada combinação feita (com diálogos que variam a cada combinação). Ainda no quesito jogabilidade, vale ressaltar aqui a possibilidade de se pilotar aviões e helicópteros, conferindo uma gama ainda maior de veículos disponíveis (que são passíveis de modificações e aprimoramentos).

Com relação à parte sonora preciso aqui dar uma ênfase maior. Além de efeitos sonoros primorosos, o jogo está todo localizado para o português, incluindo a dublagem muito competente, contando com alguns nomes que já foram entrevistados aqui no MeiaLuaCast, como Ricardo Juarez e Luiza Caspary. Mas o maior dos destaques vai para a trilha sonora. Pode falar palavrão? PQP que trilha! Você pode conferir os álbuns (sim, são mais de um) de Far Cry 5 buscando no Spotify. O álbum principal contém as músicas originais cantadas no game. Todas em um estilo bem country/redneck e com letras que envolvem situações recorrentes no game, sempre com uma levada gospel. Esse por si só é um álbum impressionante. Contudo, há outras versões do mesmo álbum, com destaque para as versões das mesmas músicas cantadas pelo coral de Hope Country. Deixo aqui a sensacional “Keep Your Rifle by your Side”, cantada pelo coral.

E aqui uma das que tem maior “pegada” gospel, “Let the water wash away your sins”.

Sem prestar atenção na letra em si, todas poderiam ser tocadas facilmente em um culto religioso. Atentando-se para a letra,contudo, podemos notar o contraste e o culto à violência como forma de se defender e propagar a religião.

Como extras, o game apresenta o modo Arcade, com editor de fases robusto e diversos modos de jogo, contando com “assets” de Assassins Creed Unity, Watch Dogs, Far Cry Primal e outros, no qual pode-se jogar competitiva ou cooperativamente em infinitos mapas disponibilizados pela comunidade. Além disso, o season pass inclui a cópica da edição clássica de Far Cry 3 e 3 DLCs. Uma delas, que já foi lançada e tive a oportunidade de jogar, chamada Hours of Darkness, se passa em um relato histórico de um dos personagens, na guerra do Vietinã. Novamente há o capricho notável da Ubisoft em oferecer uma ambientação noturna (sem a sensação de uma tela escura com dificuldades em identificar elementos) com ambientação clássica de jogos FPS de guerra, somado ao clima tropical das florestas vietinamitas que acabam nos remetendo novamente à vegetação de Far Cry 3. Ainda estão previstas as DLCs “Dead Living Zombies” e “Lost on Mars” com temátias de zumbi e ficção científica espacial, respectivamente.

Como um todo, Far Cry 5 é um excelente jogo. Para quem é fã da franquia, é mais uma obra magnífica, mais marcante que Far Cry 4, inclusive. Para quem não conhece, uma boa porta de entrada. Para os mais exigentes, é um competente FPS de mundo aberto, com uma ambientação e roteiro que fogem ao lugar comum dos jogos em primeira pessoa tradicionais.


Andre Bacchi

André Bacchi é professor universitário, podcaster e fundador do Meia-Lua pra Frente e Soco. Alfabetizado por histórias em quadrinhos e proficiente em língua inglesa (ou não) graças aos games, sua área de concentração nerd abrange também filmes e séries. Entrou no mundo dos jogos elêtronicos por meio do Atari, mas foi o Mega Drive em 1991 que o transformou em um gamer convicto. Apaixonado por Senhor dos Anéis e sua adaptação aos cinemas (mas sem o mesmo amor ao Hobbit), André é fã das HQs da Vertigo, Conan, FPS de mundo aberto e as franquias da Nintendo. Não consegue achar Game of Thrones tão bom assim e até hoje aguarda esperançoso pelo lançamento de Shenmue 3.


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