[Conto] Minha mão pela comida e meu reino por uma mão

Assinatura-Guilherme

Nuada

 

O sol está nascendo, os primeiros raios de luz atingem o meu corpo, o que não seria nenhuma novidade caso minha mão direita não refletisse e brilhasse como o mais polido bracelete de prata.

A memória dos últimos dias voltam para minha mente, quase 10 noites já terminaram desde que O Dagda, meu pai e nosso deus supremo, demandou que eu, que já reinava a sete anos nas quatro cidades que cercam o carvalho sagrado, guiasse meu povo para a Ilha do Destino. Ele havia me dito:

– Nuada, você é meu primogênito e governante dos filhos de Danu, nunca duvidei de suas habilidades como líder. As quatro cidades prosperaram mais do que qualquer divindade pudesse sonhar, mas a profecia avisou que isso não duraria para sempre e os primeiros sinais de decadência estão aparecendo.

– E o que devo fazer, meu pai, para que meu povo não definhe e desapareça nas brumas?

– Vocês devem seguir para o outro plano, lá encontrarão a Ilha do Destino, um lugar onde selarão toda a história futura do mundo.

Nesse momento minha mãe, Brigid, me deu seus últimos conselhos:

– Levem suas melhores armas e a relíquia sagrada de cada cidade, pois terão de enfrentar um povo que já habita a ilha, os Firbolg, para poderem se estabelecer. E cuide de seu corpo e mente, meu filho, pois nossa tradição demanda que o governante seja perfeito.

E assim fizemos, antes do verão começar partimos para a nossa nova casa, equipados e apreensivos pela guerra já premeditada a acontecer. Poucas coisas nos davam coragem, entre elas estavam as quatro relíquias sagradas.

A primeira, vinda da cidade de Falias, era a Lia Fáil ou Pedra do Destino, um bloco de rocha que sempre gritou de alegria quando um rei digno pisasse sobre ele. A segunda, que eu carrego na cintura, é uma espada formidável e inquebrável vinda da cidade de Gorias, e recebeu o nome de Retaliadora. Tão poderosa quanto a anterior, a terceira relíquia foi conseguida na cidade de Finias e era uma lança mágica, chamada de Javelim Vermelho, que tinha a capacidade de sempre acertar seu alvo quando lançada. Mas era a quarta relíquia que defenderíamos com mais afinco, pois dela toda o nosso sucesso dependia. O Caldeirão da Plenitude, guardada na cidade de Murias, foi forjada pelo próprio O Dagada e encantado para alimentar nações inteiras e ainda permanecer cheio.

Quando chegamos na Ilha, vimos que teríamos muito à fazer, a terra era rochosa e quase sem florestas ou campos, os rios e mares feitos de uma água escura e de odor desagradável. No entanto, tudo isso ficaria para depois. Nós éramos esperados pelos Firbolg, um povo de gigantes bárbaros constantemente prontos para a guerra.

Como rei, eu não desejava ver a morte do meu povo, por isso desafiei o campeão dos Firbolg para um duelo singular e o vencedor ficaria com três quartos da ilha.

Assim que o Rei Eochaidh concordou com os termos, vi surgir um gigante entre gigantes, um guerreiro monstruoso chamado Sreng, que portava uma espada quase duas vezes minha própria altura.

Eu sempre fui considerado um guerreiro valoroso entre os deuses e a Retaliadora mostrou toda sua capacidade, resistindo à golpe atrás de golpe da espada bastarda inimiga, mas, mesmo assim, a luta foi curta.

Minha força e agilidade não foram suficientes para vencer e, quando se deu conta que não poderia quebrar minha arma como deveria estar acostumado a fazer, Sreng mudou sua estratégia e seguiu para destruir nosso Caldeirão. Numa tentativa desesperada, me joguei para defender o artefato, e a lâmina maldita decepou minha mão que segurava a Retaliadora.

Nessa hora, minha memória me trai, apenas algumas imagens, sensações e sons ficaram guardadas, a dor latejante em meu braço, os gritos do meu povo alegando que o ataque foi desonroso, o som de uma batalha tendo início, alguém me arrastando para uma tenda e, antes de perder a consciência, o toque mágico e suave de Dian Cécht, o deus da cura.

Quando acordei, a noite já havia caído e perguntei para Dian:

– Escuto apenas os canticos de morte lá fora, vencemos a guerra?

– Não, meu rei, apenas uma trégua temporária para que os mortos sejam recolhidos e as tropas possam comer.

– Perdemos muitos? – A angústia liberava um sabor amargo de bile na minha garganta.

– Infelizmente. – Me respondeu tristemente – Mas os Firbolg tiveram baixas muito mais expressivas.

– Estou apto à encontrar o rei deles? – Questionei, olhando o cotoco enfaixado.

– Seu braço, ou o que restou dele, está quase curado, mas o que irá fazer meu rei?

Me levantei sem dar satisfações, vesti apenas um manto e segui para o acampamento inimigo, onde fui recebido por Eochaidh:

– Veio me espionar, invasor?

– De modo algum, vim conversar de rei para rei. Muitos já morreram, e eu não desejo isso.

– Somos um povo guerreiro, lutar e morrer faz parte de nossos dias.

– Mas não foram honrados, exijo que o combate singular seja refeito, nos termos que acordamos.

– Você não foi capaz quando ainda possuía duas mãos, o que espera fazer com apenas uma? – Desprezou o rei inimigo.

– Eu desejo um embate justo, Sreng deve imobilizar uma de suas mãos.

– Isso nunca deixaria o embate justo! – Esbravejou – Sreng precisa das duas mãos para manusear sua espada.

Pensando somente no meu povo, e na possibilidade de eu não sair vitorioso, usei meu último argumento:

– Se a guerra persistir seu povo será apagado da ilha até o último gigante, pois minhas tropas são maiores e mais poderosas, como provado nesse dia de combate, por isso proponho o seguinte: dividiremos a ilha pela metade e eu me baterei com Sreng. O povo que perder deverá pagar tributos sazonais ao vencedor.

– Sem restrições de movimentos de Sreng? – Eochaidh estava cauteloso.

– Não haverá restrições de movimentos em troca de três dias de trégua antes do embate, para que eu possa me recuperar totalmente.

O rei olhou para minha desfiguração e abriu um enorme sorriso, aceitando meus termos. Então me retirei para me preparar.

Ao chegar de volta em meu acampamento, encontrei meu povo em alvoroço, se preparando para mais um dia no campo de batalha.

Acalmei a todos e expliquei o que ocorreu naquela noite. Percebi um misto de tranquilidade por não terem de lutar com uma genuína preocupação comigo, o que me comoveu profundamente.

Após verificar que minhas feridas estavam cicatrizadas, reuni meu conselho para definir como poderíamos sair vitoriosos.

Debatemos por horas a fio, sem sucesso, até que Dian Cécht elevou sua voz:

– Meus caros, nós vimos o gigante lutar com sua arma desproporcional. Mesmo em sua plena saúde nosso rei Nuada não estava sendo capaz de vencê-lo, ou ser vencido. Não adianta debatermos táticas de combate, pois não trarão nenhum fruto.

– E o que nos propõe? – Perguntei.

– Eu poderia recuperar sua mão em poucos dias e restaurar sua perfeição física, mas existe um encanto, que não só irá trazer seu membro de volta, meu rei, quanto irá lhe dar mais força.

– E qual seria o preço desse encanto, meu caro?

– Seu corpo irá ser alterado para sempre. – Me respondeu, com grande pesar.

Membros do conselho se levantaram, falando que aquilo era um terrível erro, que eu não deveria abrir mão de minha perfeição e que daríamos um jeito. Silenciei a todos levantando meu braço, por puro costume, me esquecendo que não havia mão ali. Olhando aquilo argumentei:

– Senhores, eu não poderia ser curado, por mais que recuperasse minha mão antiga, pois sempre me lembrarei desse ferimento e seria um ferimento ainda maior ter a memória de não ter dado tudo que pude para meu povo.

– Mas o senhor perderá seu reinado. – Alguém disse – Sabe das nossas leis.

– Sim, meu caro, mas, novamente, digo que o farei de bom grado. Nosso povo apenas ganhará com a minha recusa ao trono. – E, antes que alguém pudesse falar, me virei para Dian Cécht. – O que irá precisar para seu encanto?

– Irei colocar seu corpo e mente em sono profundo, para que não sinta dor, não se lembrará de nada desse período.

– Estou de acordo, prefiro a lacuna em minha mente que a em meu braço. E o que mais?

– Além dos materiais que já possuo, irei precisar de prata pura em quantidade suficiente para refazer sua mão.

Não precisei requisitar por isso. Ao olhar meu conselho, vi cada um de seus membros retirar anéis, colares e braceletes maravilhosamente forjados e lançar em silêncio cada peça aos pés do deus da cura.

Mais uma vez emocionado, agradeci a todos, que me responderam que o maior sacrifício seria meu. Então os instruí, para que escondessem o caldeirão e preparassem um local para o combate, livre de qualquer artimanha dos Firbolg, e me deixei conduzir para que o encanto começasse.

Dormi rapidamente e, como me foi dito, não sei o que se passou, apenas que fui acordado há poucos minutos, quase no horário que foi determinado, e agora estou aqui, esperando meu oponente.

Não sinto diferença alguma entre essa mão prateada e o que me recordo da anterior, até avistar Sreng romper a linha de soldados, entrar na arena improvisada e sacar minha espada.

Sinto a arma leve em minha mão, assim como uma pegada mais firme que me deu certeza que não deixaria a Retaliadora cair, por mais golpes que eu aparasse.

Meu adversário olha com surpresa a peça metálica e leva alguns segundos para compreender o que estava vendo, tempo precioso para mim que ataco. Seus ataques ainda são pesados de defender e sua velocidade o torna um inimigo extraordinário, mas sinto a magia que corre por mim e, depois de nos batermos furiosamente setenta vezes sete vezes, escuto um estalo metálico e vejo a arma do gigante se desfazer em cacos.

Imediatamente, Sreng, com seu corpanzil brilhando de suor, se ajoelha e diz:

– Eu me rendo. Não posso vencer você, Nuada Argetlámh. – Que significa Nuada Mão de Prata.

– Aceito sua rendição. Agora vão em paz para sua terra. – Respondi – Avise seu rei, que o espero na noite de hoje para jantarmos e firmarmos os termos da rendição dos Firbolg.

Com essas palavras, vejo meu povo explodir em gritos de comemoração, aclamando meu nome, assim como vejo muitos dos gigantes, soltarem suas armas em alívio e se virarem para partir. No final, nenhum povo ama uma vitória ou derrota baseada numa chacina dos dois lados.

Me viro para meu irmão, Ogma, e digo:

– Você deverá reinar em meu lugar.

– Não diga isso, meu rei! – Exclama ele. – Escute com atenção o que nosso povo está clamando.

O alvoroço é enorme, pessoas gritando meu nome e algo mais. Eles gritam por Lia Fáil, a pedra do destino.

Um amor por meu povo enche meu peito e sinto o silêncio repentino se tornar mais denso que o bloco de rocha colocado aos meus pés. Olhando em volta, sentindo o carinho de todos, dou um passo e subo na pedra do destino.

Que permanece em silêncio… Nossas leis são claras, um rei imperfeito não é rei.

A cacofonia do povo retorna com grande ira pela injustiça, mas já não escuto mais nada. Apenas coloco a mão de prata na mão de Ogma e digo:

– Reine com sabedoria, meu irmão e rei. Não pense que eles são o seu povo, mas sim que você é o rei deles.

E me recolho solitário em minha cabana, podendo descansar finalmente, agora que dei minha mão pela nossa comida e meu reino por uma mão.

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Vertamatti

Seu primeiro nome é Guilherme mas isso não é lendário o suficiente, já que é descendente de Vertamus, o grande herói gales. Um dos criadores do Costelas e Hidromel, ex-engenheiro e atual jornalista/podcaster/escritor. Amante incorrigível de todas e quaisquer mitologias além de qualquer tipo de piada ou clichê. Debutou nos games com um Phantom System, achando que era o videogame original da Nintendo, e se envolveu 100% com este mundo desde então. Fã de qualquer boa história, particularmente de grandes heróis como Link, Ulisses, Hércules e Cuchuláin. Apaixonado por livros, filmes e HQs de toda sorte, escreve contos e viaja brutalmente na maionese tentando consciliar tudo que sabe das diversas mitologias e histórias da cultura pop. Sua gana por saber e ensinar lhe garantiu a fama de reencarnação de Athena nessa era, mesmo sem os longos cabelos roxos e seios fartos. Sua risada alta e fácil mantém os amigos por perto e lhe acarreta os mais diversos apelidos carinhosos (ou nem tanto…) como: Verta, Lendamatti, Saorimatti e até Thiamatti (sua deidade favorita).


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